Fala-me de música

Jornal de Parede

5.ª Punkada

Há um grupo de música pop-rock em que os seus elementos, à excepção do professor, são deficientes. Um louvável exemplo de actividade que dá pelo nome de 5.ª Punkada.

Os 5.ª Punkada transpõem a barreira do que é a musicoterapia. Há um intuito artístico que supera a componente terapêutica, uma visível satisfação dos seus elementos, um amor à música tão intenso como a vontade de viver. Transpiram música por todos os poros com a mesma paixão com que vivem a vida.

A começar – as mulheres primeiro – por Adelaide Serafino, “o calendário do grupo”, detentora de “uma memória brutal”, é um dos elementos fundadores. Já lá vão 13 anos. Não fala mas faz música. Usa um capacete com ponteiro e ponta de borracha para comunicar e tocar teclas.

Um ensaio, tal como um concerto, é ritual cumprido com o mesmo prazer que tinha o musicoterapeuta Francisco Borges de Sousa quando ajudou a dar vida ao ideal de Fausto Sousa, vocalista desta banda tão insólita quanto notável. Tudo começou alguns anos antes de Francisco ter falecido de ataque cardíaco. Morreu num palco da Guarda, provavelmente devido a grande emoção. Há quem diga que este é o sonho de qualquer músico. Tinha 40 anos.

O musicoterapeuta partiu, mas os restantes elementos do grupo exigiram à direcção da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (Núcleo Regional do Centro), que o projecto não parasse. Contra sonhos não há argumentos. A prova disso é que hoje, Fausto Sousa (vocalista), 36 anos, Ricardo Sousa (sound beam), 23, Adelaide Serafino (teclas), 34, e Márcio Reis (bateria), 24, todos eles com problemas físicos e mentais, são músicos que, sob a orientação do professor Paulo Jacob, continuam a levar avante um projecto que é, antes de mais, o resultado de um sonho: uma banda de pop-rock que abrange quase todo o espectro musical, notando-se aqui e ali elementos estilísticos do jazz, do blues e até do punk, que é para fazer jus ao nome. “A sociedade tem que dar oportunidade a estes jovens músicos cheios de talento. É isso que tentamos aqui fazer”, afirma Paulo Jacob sem esconder uma ponta de orgulho.

VENCEDORES NA ÁUSTRIA

A Domingo foi assistir a um ensaio do grupo numa sala da Quinta da Conraria, em Coimbra, onde todas as semanas se reúnem, e confirmou que deficiência não significa limitação. Antes pelo contrário. “Estamos a trabalhar com pessoas diferentes mas com grande apetência para a música”, informa a psicóloga Teresa Paiva, da direcção da associação, logo interrompida pelo baterista e teclista Márcio Reis, que parece ser constituído por cabeça, tronco, membros e... música: “Eu e a Rita ganhámos o Festival da Canção” deixa escapar com palavras banhadas de alegria. Pelos vistos foram os primeiros portugueses a cometerem a proeza. “No seguimento da vitória deles no festival nacional para pessoas com deficiência, foram representar Portugal na Áustria onde obtiveram o primeiro lugar”, esclarece mais tarde Paulo Jacob. Márcio não se lembra do nome da música, mas sabe cantá-la. Com uma pequena ajuda, chega lá: “A canção chama-se ‘Maior que o Mundo’”.

À excepção do Márcio, os restantes 5.ª Punkada deslocam--se em cadeira de rodas.

Todos têm Necessidades Educativas Especiais. Ou seja, não possuem todos os instrumentos físicos, sensoriais e de raciocínio que lhes permitam fazer o que para a maioria das pessoas é normal. Têm de base uma paralisia cerebral, doença iminentemente motora, perturbação da postura e do movimento. “Qualquer um destes casos é considerado grave. No entanto, do ponto de vista intelectual – com excepção do Márcio que é o único que anda, que não tem paralisia cerebral mas uma deficiência mental grave – são muito inteligentes.

O baterista do grupo tem uma síndrome que o torna quase sobredotado em termos musicais mas é muito limitado no relacionamento”, explica Teresa Paiva que considera que “o mais importante é que se tratam de pessoas bastante capazes. O problema é que normalmente não têm oportunidade para o mostrar.”

CAPACIDADE DE CATIVAR O PÚBLICO

Quando se vê, custa a ver. Porque, aparentemente, parece que sofrem. Estão amarradas a uma cadeira de rodas, não conseguem deambular nem comunicar normalmente. “As pessoas que os vêem tocar, inicialmente ficam chocadas. Acontece que rapidamente ficam agarradas à sua capacidade de interacção e qualidade musical. Chega quase a ser como droga. A capacidade que têm de nos cativar é algo de extraordinário”, afirma a psicóloga.É por isso que o professor Paulo divide a sua vida em duas partes: “Antes de ter visto o primeiro ensaio dos 5.ª Punkada e depois disso.”

O objectivo principal, segundo o professor, “é mostrar às pessoas que não estamos aqui a brincar. Somos músicos e é música o que fazemos. E é rock. Se for preciso ser rock duro, porque não? Temos o direito de o fazer. E não há ninguém mais roqueiro do que o nosso vocalista. O Fausto vibra completamente quando está em palco.” Na maior parte das vezes o que canta é imperceptível. Teresa Paiva dá a ideia de colocar as letras num quadro para que as pessoas as entendam. Paulo Jacob não concorda: “Eu, que sou um amante de música, quando ouvi pela primeira vez os Nirvana também não percebi nada da letra. Tive que ter algum trabalho. Aqui, passa-se o mesmo. As pessoas têm que ter espírito de procura e vontade de descobrir. Não queremos dar as coisas de mão-beijada.”

Os 5.ª Punkada têm qualidade musical. Comparável a bandas com discos editados e muitas idas à televisão. Porque dão muito de si. “Já experimentei tocar o mesmo tema com eles e com um grupo de músicos ditos normais. Posso garantir que os 5.ª Punkada aprenderam a tocá-lo de forma mais rápida. A capacidade de entrega é bastante superior”, diz o professor que considera que, com eles, é “muito mais fácil trabalhar a nível de construção musical e de pedagogia do que com uma banda de gente comum.”

Teresa Paiva, há vinte e dois anos a trabalhar na Associação, não tem dúvidas: “O grupo suplantou todas as expectativas. Inicialmente a ideia era criar uma banda dirigida a jovens sem possibilidades de irem para o mercado de trabalho dito normal, dando-lhes a oportunidade de terem uma actividade do ponto de vista produtivo e terapêutico.

Por culpa do Fausto, os 5.ª Punkada têm vindo a proporcionar a todos nós, direcção e público, uma experiência fantástica.”

Dá para se perceber a importância da 5.ª Punkada na vida destes jovens. Fausto tem quase tantos anos de vida como de vontade de cantar. “O meu maior desejo sempre foi ter uma banda. Ser vocalista. Lutei até o conseguir”, afirma, com mais dificuldades em falar do que em cantar.

Também Márcio canalizou praticamente todas as suas capacidades para a música. “Sempre quis ser baterista porque sempre tive o sonho de tocar bateria”, conta, riso colocado em permanência com a mesma intensidade com que sente a música, principal fonte de prazer para os quatro.

A professora Maria Armanda Januário, membro da direcção da Associação, explica que “o objectivo da nossa instituição é a integração social da pessoa com deficiência. Terem conseguido realizar espectáculos permitiu-lhes, em termos sociais, uma integração muito positiva.”

O momento para que todos trabalham é o da actuação ao vivo. Já tocaram em Espanha, Grécia, Itália e Alemanha. “Estamos abertos a qualquer tipo de convite para dar concertos. Seja ele de uma associação congénere, de uma escola, ou da Queima das Fitas de Coimbra onde já actuámos e onde, ao que tudo indica, nos iremos apresentar este ano no palco principal”, informa o músico-professor.

O público surpreende-se. Arrepia-se com este exemplo de vida. Há quem chore e quem fique estupefacto. Quando batem palmas dá-se o auge. “Mas atenção”, alerta o professor. “Há que tratá-los como pessoas normais. Aflige-nos, a mim e a eles, o estigma do coitadinho. Afinal, eles são músicos e tocam bem os seus instrumentos, coisa que a maioria das pessoas não é capaz de fazer”.

Os 5ª Punkada exprimem os seus talentos e as suas capacidades e, ao contrário de muitos de nós, são felizes com o que fazem. E é por isso que aquele sonho idealizado pelo musicoterapeuta Francisco Borges de Sousa contiua com pernas para andar.

Continua a comandar-lhe a vida. Mas mesmo que quissesem desistir certamente que não conseguiriam. Basta vê-los em cima de um palco para se aperceber que a música é a sua segunda pele. Mais do que uma terapia é uma paixão. Avalassadora.

LETRAS DO FAUSTO

O vocalista e letrista não é homem de desistir. Tem música no coração.

Fausto quase não fala mas canta e escreve com mestria. As suas letras abordam temáticas como as relações humanas, conceitos universais como amor ou a amizade. Fausto explica, ajudado pelo professor e pela psicóloga, que para escrever, umas vezes tem que pensar muito, outras tudo sai de forma espontânea.

“Quando preciso fazer letras nem sequer consigo dormir”, diz. Escreve em qualquer altura do dia, “quando tenho inspiração.” Para que conste, aqui fica uma das letras:
“O que eu ainda tenho de ti / É o teu nome e o sentimento / Que sentia no passado / E ainda é tão tocante. A mente do apaixonado / Como eu nunca esquece / Do amor que aumenta / Ai do amor. Que sentido tem o sentimento / Quando não é tocante / Eu tenho a mente tão atada / Ao passado. O amor tão escondido / Que eu tenho por ti / Vai aumentando / Ai como é tão quente / Que queima o coração.”

As letras do Fausto são inspiração. E transpiração. O vocalista e letrista da banda, é extremamente determinado. Se os 5.ª Punkada existem é pela sua teimosia em ser cantor. Quando acredita em algo não descansa enquanto não atinge os objectivos. Adelaide também é determinada, ponderada nas atitudes que toma, muito inteligente.

Possui uma formação básica em música. Expressa-se através de um quadro onde está inserido um símbolo e uma palavra. Um sistema alternativo à comunicação oral que utiliza com rara capacidade pois domina os quase 400 símbolos.

Ricardo toca ‘sound beam’ (instrumento que emite sons através das ondulações da mão), é um rapaz bonito, tranquilo e sereno. Tem um olhar meigo, um jeito carinhoso de ser, quase não se dá pela sua presença. Márcio, o poli-instrumentista do grupo, é deveras simpático, sempre muito alegre. A sua linguagem oral é perceptível mas não consegue manter uma conversa fluída.

No entanto, desenvolve diálogos musicais com toda a facilidade, seja em termos rítmicos, harmónicos ou melódicos. Todos eles são música.

UM PROFESSOR ORGULHOSO

Paulo Jacob, licenciado em Educação Musical, diz meio a sério meio a brincar que caiu neste projecto “de pára-quedas”. Mas logo, muito mais sério, informa que “a seguir à morte do musicoterapeuta Francisco, a direcção contratou um professor com pouca disponibilidade que me sugeriu que eu viesse conhecer o projecto. De imediato disse que não.” Porquê? “Achava que isso era muito forte para mim. Na altura andava a estudar na Escola Superior de Educação.”

Mas a nega não durou muito tempo. Um certo dia, assim, sem mais nem porquê, Paulo Jacob foi atropelado pelo destino. “Apanhei um autocarro onde iam pessoas estranhas em direcção ao Centro de Actividades Ocupacionais da Quinta da Conraria. Lembro-me de ter dito a mim próprio que não seria capaz de trabalhar com eles. Por ironia do destino decidi vir. Poucos minutos depois de estar a vê-los tocar, fiquei completamente rendido.”

Paulo Jacob deixou-se embalar pela melodia do grupo. ”Bastou olhar para o Márcio para ficar encantado e perceber que de deficientes não têm nada. Aliás, deficiente sou eu”, diz, passando a mão na cabeça rapada. Passado este tempo todo não se arrependeu. E certamente que esta experiência fez dele uma pessoa melhor.

José Manuel Simões

Capa | Conteúdos | Jornal de Parede

Agora no Fala-me de música podes ter aulas de guitarra, presencialmente ou pela Internet.
Contacta-nos para saberes como.

Luís Oliveira
Telefone: 912938436 ou 966544836
Skype: lrouxinol